Morreu satanás, jezebel, o diabo!
Eis a morte que convinha à igreja, à nossa democracia, aos bancos e
usurários, à grande podre pátria europeia, ao euro (é verdade: até
ao inofensivo euro esta morte convinha!), ao FMI, à OCDE... Aos
profetas do pós-modernismo, ao capitalismo selvagem e ao comunismo
ortodoxo, aos
tecnocratas e intelectuais no poder.
A estaline, hitler, mussolini, salazar, sarkozy, a essa
'coisa'
chamada berlusconi. A césar divi filius o imperador de Roma. E ainda ao PIB e
aos patrões. Ao trabalho. Ao medo. À mordaça!
Morreu Saramago e até as nuvens agradecem. Sim, e o ar que nós
respiramos, o nosso décimo terceiro mês, as criancinhas obrigadas a
trabalhar na China e no Bangladesh, os mortos enterrados em valas
comuns na Faixa de Gaza e as
vítimas dos gulags na Sibéria porque todos têm agora —
inalienável! — um lugar merecido na consciência dos homens de boa
vontade.
Este Saramago (quero dizer: satanás, jezebel, o diabo!) que morreu
era um perigo, uma espécie de bin laden da América, um bêbado
indigente que
atirava pedras às estrelas da imaculada bandeira azul da UE.
Eis, portanto, uma morte inofensiva, até conveniente (pois, o que
morreu foi o cidadão não foi o cliente...).
Por muitos anos se ouvirá ainda às portas do inferno:
«—a puta que
os pariu a todos!»
A puta que pariu os que o quiseram ver ali, prostrado, inerte, inofensivo na sua
última morada e puseram gravata preta e mandaram lançar foguetes e
salvas de morteiro e falaram aos jornais e às televisões e choraram
para a fotografia e com ele embalsamaram o futuro.