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  Post 012 -  Abril de 2008  

 

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o coelhinho foragido

 

«Era uma vez um pequeno coelhinho que queria fugir. E disse à mãe que ia fugir.

A mãe respondeu que se ele fugisse, ela iria atrás dele, pois ele era o seu coelhinho.

O coelhinho disse que se ela fosse atrás dele, este tornar-se-ia um peixe num rio e nadaria para longe dela. A mãe respondeu que, caso ele se transformasse num peixe, ela tornar-se-ia pescadora para o pescar.

O coelhinho disse que se ela se tornasse pescadora, este transformar-se-ia num pássaro para voar para longe dela.

Ao que a mãe respondeu que se ele voasse para longe dela, ela transformar-se-ia na árvore à qual este sempre regressaria...»
MARGARET WISE-BROWN, «O Coelhinho Foragido», 1942.

 

 

 

 

Vivian Bearing (Emma Thompson) opta pelo código NR [não reanimar] para superar a morte, sustentada pelo poeta metafísico inglês John Donne: «Morte, também tu perecerás...»
dir. fotografia SEAMUS McGARVEY
 


   Poderá uma mulher que nunca teve filhos, intransigente até onde lhe permite a sua vasta erudição, mas ainda assim aquém das «cabras libertinas» [«Se as cabras libertinas, as serpentes venenosas não podem ser condenadas, então porque sou eu?»], poderá uma mulher assim sofrer até à morte por um cancro nos ovários e, ainda por cima, no derradeiro desejo de a superar (superar a morte no sentido figurado, pois era consciente da sua inevitabilidade), abdicar da razão? [«Mas quem sou eu para de Vós discordar?»]
Tecnicamente, sim. Mas a lição moral é, de verdade, tão violenta como o próprio filme de Mike Nichols.

   Em «Wit» (Espírito de Coragem, 2001), Vivian Bearing é uma professora de 48 anos, especializada na obra do poeta metafísico John Donne (1572-1631), que recebe quimioterapia experimental para tratar um cancro metastático avançado nos ovários.
   A sua experiência de paciente erudita em estado terminal leva-a a reflectir sobre as universais opções de poder e intransigência e, inevitavelmente, sobre o seu próprio passado... Não podendo representar o papel de mãe, o filme de Nichols enfatiza o seu papel de uma filha que se reaproxima do essencial através da morte (e da sua teórica superação).


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