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O voo dos pimparos


fotos CHRISTOPH
OTTO
http://www.christoph-otto.com
Desafiando a vida como os
pimparos — os pássaros de asas amarelas que sobrevoam o vale
do Rio Negro, no sul da Colômbia — a pequena Daisy Mora, de apenas
9 anos (2001), transporta o seu irmão Jamid, de 5 anos, dentro de um
saco de juta a 370 metros de altura ao longo de um cabo de aço com
800 metros de comprimento. Os voos arrepiantes que os levam à escola
duram 60 longos segundos.
Na densa floresta da cordilheira oriental colombiana,
a cerca de 60 quilómetros a sudeste de Bogotá, a natureza impõe
severos limites à vida humana. Para atravessar o gigantesco
vale do Rio Negro, os índios que ali vivem há mais de 2 mil anos
utilizavam extensas cordas de cânhamo, até que há cerca de 200 anos aquela região
do sul da Colômbia foi invadida por exploradores de madeira, que
substituíram o cânhamo por cabos de aço para o transporte das
árvores. Depois da proibição do corte de madeiras, na década de
1960, algumas famílias que ali trabalhavam decidiram ficar,
dedicando-se à pastorícia e aproveitando as clareiras abertas pela
desarborização para iniciar pequenas culturas de subsistência.
Em 2001, o fotógrafo alemão
Christoph Otto
fez uma reportagem sobre a estranha vida de uma dessas famílias: Guillermo Mora e a
sua mulher Nidia
Cifuentes com os seus cinco filhos.
A história conta as viagens de Daisy, uma rapariga de apenas 9
anos de idade, e do seu irmão Jimad, de 5 anos, que para irem à
escola têm de sobrevoar num cabo de aço os 800 metros que separam a
barraca de madeira onde vivem da encosta onde se situa a aldeia mais
próxima, Guajabetal. Para além da travessia do vale do Rio Negro, num voo a 370
metros de altura, têm ainda de percorrer 10 quilómetros a pé por um
desfiladeiro que deve ser desbravado com catanas todos os meses.
Guillermo ata o saco onde vai o filho Jimad no gancho da
roldana assente no cabo de aço. Com uma corda dobrada a meio e presa
do mesmo modo, Daisy faz uma espécie de cadeira onde se senta.
Depois, com uma das mãos, segura a ponta de um forquilha de madeira que
lhes há-de amortecer a queda sobre o pneu de um velho camião, na
outra margem, e inicia-se a viagem. Ao longo de todo o percurso a roldana solta
minúsculas faíscas de fogo e os metais
arrastam-se num chiar assustador, enquanto a pequena Daisy vai abanando
o gancho de ferro para não deixar o mecanismo
parar...
O leito do Rio Negro é famoso pelas suas enormes
quedas de água, pelas coloridas mariposas e por lendas
inacreditáveis de curupiras — duendes que criam maldições
contra garimpeiros e lenhadores para que estes se percam e
enlouqueçam no meio da selva. Segundo o explorador e médico brasileiro Drauzio Varella, este lugar por onde passou Charles
Darwin acolhe «raízes gigantes, cipós, parasitas, bromélias, filodendros, bolores, briófitas minúsculas, insectos voadores, formigas, térmitas que constroem grandes casas de terra agarradas aos troncos e seres microscópicos
que fazem de cada árvore um nicho ecológico peculiar...»
Os agricultores que partilham as clareiras com a
família de Daisy e Jimad acreditam que são
abençoados pelos deuses do vento, da terra e das árvores e ainda pela Virgem de Chirajara — a santa que os protege dos perigos
das viagens nos
cabos de aço.
Construir uma ponte neste lugar não é viável. E
talvez não seja conveniente, porque o regresso da civilização
poderia acabar com a espécie (ou a liberdade) dos pimparos — os
magníficos pássaros de asas amarelas que acompanham as crianças nos
seus voos arrepiantes sobre o gigantesco vale de vegetação
verde-escura e de intensas e húmidas neblinas.
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O governo colombiano tem vindo a construir desde a década de 1990 diversas
pontes que ligam as principais cidades da Colômbia. É provável que
algumas destas pontes atravessem o Rio Negro, mas este rio de águas
escuras é enorme.
Não há notícias sobre o que aconteceu à família Mora
e aos pequenos Daisy e Jimad depois que Christoph Otto fez a sua
reportagem,
de 2001.

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