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  Post 022 -  Julho de 2009  

 

foto: Carlos Vilela 2010

 

 

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O voo dos pimparos

 

 

 

fotos CHRISTOPH OTTO http://www.christoph-otto.com

 

Desafiando a vida como os pimparos — os pássaros de asas amarelas que sobrevoam o vale do Rio Negro, no sul da Colômbia — a pequena Daisy Mora, de apenas 9 anos (2001), transporta o seu irmão Jamid, de 5 anos, dentro de um saco de juta a 370 metros de altura ao longo de um cabo de aço com 800 metros de comprimento. Os voos arrepiantes que os levam à escola duram 60 longos segundos.  

 

 

 

Na densa floresta da cordilheira oriental colombiana, a cerca de 60 quilómetros a sudeste de Bogotá, a natureza impõe severos limites à vida humana. Para atravessar o gigantesco vale do Rio Negro, os índios que ali vivem há mais de 2 mil anos utilizavam extensas cordas de cânhamo, até que há cerca de 200 anos aquela região do sul da Colômbia foi invadida por exploradores de madeira, que substituíram o cânhamo por cabos de aço para o transporte das árvores. Depois da proibição do corte de madeiras, na década de 1960, algumas famílias que ali trabalhavam decidiram ficar, dedicando-se à pastorícia e aproveitando as clareiras abertas pela desarborização para iniciar pequenas culturas de subsistência.

 

Em 2001, o fotógrafo alemão Christoph Otto fez uma reportagem sobre a estranha vida de uma dessas famílias: Guillermo Mora e a sua mulher Nidia Cifuentes com os seus cinco filhos.

A história conta as viagens de Daisy, uma rapariga de apenas 9 anos de idade, e do seu irmão Jimad, de 5 anos, que para irem à escola têm de sobrevoar num cabo de aço os 800 metros que separam a barraca de madeira onde vivem da encosta onde se situa a aldeia mais próxima, Guajabetal. Para além da travessia do vale do Rio Negro, num voo a 370 metros de altura, têm ainda de percorrer 10 quilómetros a pé por um desfiladeiro que deve ser desbravado com catanas todos os meses.

 

 

Guillermo ata o saco onde vai o filho Jimad no gancho da roldana assente no cabo de aço. Com uma corda dobrada a meio e presa do mesmo modo, Daisy faz uma espécie de cadeira onde se senta. Depois, com uma das mãos, segura a ponta de um forquilha de madeira que lhes há-de amortecer a queda sobre o pneu de um velho camião, na outra margem, e inicia-se a viagem. Ao longo de todo o percurso a roldana solta minúsculas faíscas de fogo e os metais arrastam-se num chiar assustador, enquanto a pequena Daisy vai abanando o gancho de ferro para não deixar o mecanismo parar...

 

O leito do Rio Negro é famoso pelas suas enormes quedas de água, pelas coloridas mariposas e por lendas inacreditáveis de curupiras — duendes que criam maldições contra garimpeiros e lenhadores para que estes se percam e enlouqueçam no meio da selva. Segundo o explorador e médico brasileiro Drauzio Varella, este lugar por onde passou Charles Darwin acolhe «raízes gigantes, cipós, parasitas, bromélias, filodendros, bolores, briófitas minúsculas, insectos voadores, formigas, térmitas que constroem grandes casas de terra agarradas aos troncos e seres microscópicos que fazem de cada árvore um nicho ecológico peculiar...»

 

Os agricultores que partilham as clareiras com a família de Daisy e Jimad acreditam que são abençoados pelos deuses do vento, da terra e das árvores e ainda pela Virgem de Chirajara — a santa que os protege dos perigos das viagens nos cabos de aço.

 

Construir uma ponte neste lugar não é viável. E talvez não seja conveniente, porque o regresso da civilização poderia acabar com a espécie (ou a liberdade) dos pimparos — os magníficos pássaros de asas amarelas que acompanham as crianças nos seus voos arrepiantes sobre o gigantesco vale de vegetação verde-escura e de intensas e húmidas neblinas.

 

______

O governo colombiano tem vindo a construir desde a década de 1990 diversas pontes que ligam as principais cidades da Colômbia. É provável que algumas destas pontes atravessem o Rio Negro, mas este rio de águas escuras é enorme.

Não há notícias sobre o que aconteceu à família Mora e aos pequenos Daisy e Jimad depois que Christoph Otto fez a sua reportagem, de 2001.

 

 

 

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