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  Post 017 -  Março de 2009  

 

foto: Carlos Vilela 2010

 

 

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As feridas de Frida

 

 

foto GUILLERMO KAHLO (1926)

 

 

 

 

«Poesia trata-se, antes de mais nada, de fazer música com a própria dor.»

PAUL VALÉRY

 

 

 

«A tarefa de Frida, como pintora, estava imbricada com a narração de sua catástrofe.»

Gilda Kelner, Suzana Boxwell e António Ricardo Rodrigues da Silva, Catástrofe e representação na pintura de Frida Kahlo

 

 

 

 

Lágrimas, negativos fotográficos de sangue...

 

Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón nasceu em Coyoacán, México, em Julho de 1907, filha de um judeu-alemão de nome Guillermo Kahlo e de uma bonita mestiça mexicana chamada Matilde Calderón e Gonzalez. Antes do seu nascimento, a vida do seu pai (e também a da sua mãe) fora já uma sucessão de trágicos acontecimentos, cruzados depois com a sua própria tragédia: Frida herdou-lhe o gosto pela pintura e pela fotografia.

 

 

Frida, perna de pau...

 

Aos seis anos contraiu poliomielite: ficou coxa, com uma perna mais curta e a musculatura atrofiada e anos mais tarde haveriam mesmo de lhe amputar um pé.

 

 

Um ferro atravessou-me como a espada a um touro...

 

Aos dezoito anos (1925) foi vítima de um violento acidente de autocarro, que a deixou paralisada durante vários meses devido a graves fracturas na coluna vertebral e na bacia, ficando impedida de ter filhos (haveria de engravidar três vezes sem sucesso). Segundo o relatório médico, uma barra de ferro entrou-lhe pelo quadris esquerdo e mostrou-se na vagina, provocando-lhe mazelas que iriam persegui-la durante toda a vida: fez 32 intervenções cirúrgicas, que não conseguiram aliviar-lhe o sofrimento.

A par disto, Frida exteriorizava sinais de uma bissexualidade perturbadora, e jamais conseguiu sublimar de outra forma senão através da pintura o facto de ter sido amamentada por uma ama-de-leite em vez da sua própria mãe: este direito fora-lhe retirado pela irmã, Cristina, 11 meses mais nova e indiscutivelmente mais bonita.

 

 

Espelho, verdugo dos meus dias...

 

Após o acidente, impossibilitada de continuar a estudar, o seu pai construiu-lhe um cavalete especial, que lhe permitia pintar deitada na sua cama frente a um espelho. Fez o seu primeiro auto-retrato em 1926, e esse seria o princípio da sua emancipação: «pinto auto-retratos — disse — porque estou a maior parte do tempo só, porque sou a pessoa que melhor conheço.»  

 

A partir de então, transformou as suas doenças em modelos da sua pintura: de facto, todos os seus quadros são narrativas da sua catástrofe.

 

 Sobrevivendo às sucessivas vicissitudes, eterna inconformada e irreverente, Frida Kahlo tornou-se famosa na América e na Europa e ficou na História como uma das grandes pintoras do século XX. É, por isso, severa e pessimista a visão de Jean Cocteau sobre arte e poesia: que implicam solidão espantosa, maldição de nascença e, em suma, religião sem esperança.

 

Lúcia Helena Vianna, a investigadora brasileira que estudou exaustivamente o diário de Frida Kahlo, refere que a pintora «tece um elo indestrutível entre vida e obra, com a explícita conexão de tinta e sangue.» A literatura ensina, aliás, que o amor e a poesia podem salvar, e tais lições de sobrevivência tendem a substituir a fé num deus qualquer.

 

 

Pés, para que vos quero, se tenho asas para voar?

 

Cansada de sofrer, Frida Kahlo rendeu-se à morte aos 47 anos, em 1954. Mas, porque não poderia sair («espero com alegria a saída... e espero não regressar nunca») pelos seus próprios pés, imaginou-se a levitar no seu leito em chamas...

 

Sobreviver através da pintura (e do amor, ao lado de Diego Rivera) foi a sua religião. «Viva la vida!» era a sua assinatura.

 

 

 

A VIDA NA OBRA DE FRIDA KAHLO (20 imagens)

 

 

 

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que estão frequentemente em casa todos ao mesmo tempo.

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