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  Post 019 -  Junho de 2009  

 

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A filha de Freud

 

 

Pode dizer-se que um homem moderno revela-se quando consegue interiorizar os sinais da modernidade. Mas ele será verdadeiramente revolucionário (um génio, afinal) quando não só consegue interiorizar mas também consegue interpretar a mudança dentro do seu próprio mundo. Ainda que isso possa ser, por vezes, profundamente doloroso.

 

Freud foi, para muitos, um homem moderno. Mas só aqueles que conhecem o drama de ter gerido no seio da sua própria vida a estranha masculinidade da filha Anna — o que não era fácil há 100 anos atrás —, sabem ao certo a dimensão da sua genialidade. No fundo, confirmando uma máxima de Jacques Rousseau, o mundo de Freud era bom e ele sabia-o: só a sociedade o poderia corromper...

 

 

Ninguém pode acusar o pai da Psicanálise de incoerência: ao atacar os constrangimentos e a repressão do inconsciente, contribuiu decisivamente para a mudança dos costumes e o degelo de muitos preconceitos. Dizem os caricaturistas com natural exagero que não se pode desligar os ensinamentos de Freud da promiscuidade sexual moderna.

 

É, de facto, de sexo — e da sua negação —, que falamos se falamos de Anna. Freud foi seu psicanalista. Porquê?

 

Descobrir isso é uma suprema catarse: tentar entrar na sua intimidade, ameaçar contra todas as suas teses, provar (ou negar) a sua genialidade. Será possível?

 

 

foto TIM GIDAL, Anna Freud, 1920.

 

 

Em certos aspectos, a filha de Freud faz lembrar Frida Khalo. Foi «moderna e homoafectiva», dizem. Há quem arrisque mesmo a afirmar que se tornou amante de Dorothy Burlingham, a americana que foi co-autora de algumas das suas obras e teorias. Mas, se foi tão compreendida pelo pai, à luz da teoria do «continente obscuro» (a natureza da feminilidade foi, para Freud, um enigma irresolúvel), não o terá sido também porque era mais «masculina» do que «feminina»?

 

Anna Freud (1895-1982) foi a última de seis filhos de Sigmund e Martha. Enfim, o pai terá desejado ter um filho varão, a irmã Sophie — aparentemente mais bonita — parecia monopolizar as atenções da família, e nas inquietações da adolescência não terá escapado ao objecto do seu estudo: Complexo de Édipo e instinto de morte (sabe-se que Anna rejeitava a mãe e passou por graves depressões).

 

Com o passar dos anos, é o pai que se converte: o pai é o totem, claro, mas ele próprio abdicou disso em relação à filha. Em 1899, numa carta ao seu amigo Wilhelm Fliess, Sigmund confessava: «Anna has become downright beautiful through naughtiness...» (tornou-se bonita com a sua maldade). Premonição?

 

 

 

Anna foi discípula do pai. Se o temeu (como Kafka, Carta ao Pai, 1919: «diante de ti perdi toda a confiança em mim»), ninguém sabe. Idolatrou-o e acompanhou-o até ao fim.

Na acepção reichiana, terá sido o pai que lhe facilitou a escolha entre temperamento e carácter, entre neurose e psicose na sua própria acepção. Em conclusão, uma ausência paterna poderia ter-lhe sido fatal...

 

Participou em importantes acções humanitárias na Europa pós-hitleriana e, mesmo depois de — por modéstia — passar a vida a negá-lo, desenvolveu sem dúvida um trabalho pioneiro sobre a psicanálise infantil.

 

Sigmund escreveu um dia: «If you want to be a real psychoanalyst you have to have a great love of the truth, scientific truth as well as personal truth, and you have to place this appreciation of truth higher than any discomfort at meeting unpleasant facts, whether they belong to the world outside or to your own inner person.» O que quer dizer que ele achava que um verdadeiro psicanalista deve ser íntegro e responsável do ponto de vista científico e também na sua vida pessoal, e isso ajudá-lo-á na compreensão dos factos mais desagradáveis, tanto na vida dos outros como na sua própria vida.

 

Em 1988, nos EUA, Peter Gay, professor de História da Yale University, Connecticut, publicou uma biografia de Freud com um título magnífico: A Life for Our Time (Freud: Uma Vida para o Nosso Tempo, na edição da 'Companhia das Letras', Brasil, 1989).

 

Em resumo, de fiável pouco se sabe sobre a vida íntima de Anna Freud para além das ameaças sensacionalistas de alguns dos seus críticos e dos testemunhos simbólicos do seu próprio pai. Como disse Nietzsche, um homem de génio será insuportável se não possuir duas outras qualidades: gratidão e asseio. Freud teve-as em relação à filha. Afinal, foram ambos modernos e geniais. Tanto, que souberam gerir as feridas com essa rara inteligência de transformar a angústia, a dor e a perda em... símbolos. Exactamente! O que servia para os outros era válido para eles próprios.

 

 

 

______

Num importante estudo publicado pela revista «Psyché» (Universidade São Marcos, S. Paulo, Brasil, 2006), com o título Electra versus Édipo, a psicóloga holandesa Hendrika Halberstadt propõe uma análise simbólica da relação entre Freud e a filha, a partir do mito de Electra, e lança algumas luzes sobre o drama da família. «A bissexualidade pode levar à assexualidade, como demonstra Electra. Sem ser homem ou mulher, consola-se com sua superioridade moral em relação a sua sensata irmã, Chrysothemis, a qual representa a mulher sadia. O ódio que Electra espera da mãe é parcialmente uma projecção da animosidade da criança frustrada. (...)Anna, a filha mais nova e não desejada da família Freud, sentiu-se negligenciada por sua mãe e profundamente decepcionada com ela. Em razão disso, ligou-se ao pai, a quem idealizava, como Electra, sem chegar a uma escolha heterossexual.»

 

 

 

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