Irrefutáveis teorias científicas, de Pitágoras a Platão, Galileu, Kepler, Newton, Einstein... confortaram-nos durante séculos sucessivos com a ideia de que
o aparente caos do Universo é manifestação de uma unidade e uma
harmonia absolutas entre tudo o que existe. A separação entre o Belo e o Verdadeiro,
típica do absolutismo clássico, faz ainda parte do mesmo festim romântico que funde em conveniente dissimulação realidade e ficção.
Para as religiões, duma maneira geral, esse conforto
reside na crença numa figura divina, omnisciente e omnipresente, que nos criou à sua imagem e que nos protege e orienta para além da própria morte.
A literatura marxista, orientada para o realismo
crítico e já consciente da diversidade da Natureza, parece ter sido fundada no mesmo princípio estético do "belo-horrível" da tradição gótica
(as deformidades de Quasimodo não o impediram de ser herói em
Nossa Senhora de Paris de Victor Hugo, como bem recorda Massaud
Moisés).
Outras teorias científicas mais recentes, baseadas no primado do materialismo da Física moderna, sustentam que Deus — ou, para os ateus, a figuração de tudo o que é perfeito — não é necessário para justificar a criação do
Mundo («One can't prove that God doesn't exist, but science makes God unnecessary.» Stephen Hawking, 2010).
Por fim, Marcelo Gleiser (para quem, segundo o Nobel da Química Roald Hoffmann, a beleza subsiste num
Universo imperfeito, assimétrico e acidental), defende que
«toda a transformação que ocorre no mundo natural é resultado de alguma forma de desequilíbrio.»