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  Post 026 -  Março de 2010  

 

foto: Carlos Vilela 2010

 

 

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Barthes, fotografia e catástrofe

 

 

“A tragédia não é a imitação de homens, mas de uma acção de uma vida”. ARISTÓTELES

 

 

 

Sabe-se que a existência humana é por natureza trágica, e na sua esmagadora maioria as imagens dos grandes fotojornalistas revelam essa tragédia em movimento (a guerra, o caos...) e poucas vezes a intimidade da morte. Não porque a morte não seja, em si, uma tragédia, mas será a morte particularmente fotogénica? Afinal, como se deduz da Poética de Aristóteles, a dimensão da tragédia (um «puntum» da fotografia) não reside tanto numa simples representação do homem — o seu retrato estático, o seu tempo parado —, mas na expressão da sua perversidade em acção.

 

Vejamos o que diz Roland Barthes.

 

 

 

 

Felicidade Coelho (à direita) numa fotografia dos anos (19)80.

foto GÉRARD FOUREL

 

 

Reencontro com Felicidade Coelho, Vilarinho Seco, Março de 2007.

foto ANTERO DE ALDA

 

 

 

“Este novo punctum, que já não é forma, mas intensidade, é o tempo, é a ênfase dolorosa do noema ('isto foi...'), a sua representação pura”. ROLAND BARTHES

 

 

A reflexão barthesiana do tempo fotográfico difere do conceito de acção do fotojornalismo, e talvez até do próprio conceito de «momento decisivo» de Bresson. Isto, porque, como diz Ruth Iana Ferreira (Fotografia/Tempo: Imagem mental e emoção), se «atribuímos ao objecto fotografado uma vida exterior ao que realmente nos é apresentado, o desejo de ver mais além do que o visível...», também nos apercebemos que há na fotografia «dois tipos de morte: a morte instantânea – o momento do disparo e respectiva paragem no tempo – e a morte previsível – esse noema que é 'isto será...' e 'isto foi...'».

 

 

Mais ou menos criativos, os retratos serão sempre testemunhos do encontro dos vários tempos (o tempo congelado e o tempo previsível, o tempo criativo e o tempo antropológico...) que a fotografia representa.

 

 

Felicidade Coelho foi fotografada nos anos (19)80 pelo fotógrafo francês Gérard Fourel. Em 2007, reencontrei-a quando ela própria já não tinha a noção do seu tempo de vida: pensa-se que terá agora 76 anos.

 

Doente de Alzheimer, partiu para a América, para casa de uma filha, em Março de 2009. Partiu para morrer.

 

 

 

 

«(...) Ele vai morrer. Leio ao mesmo tempo: isto será e isto foi. Observo, horrorizado, um futuro anterior em que a morte é a aposta. Dando-me o passado absoluto da pose (aoristo), a fotografia diz-me a morte no futuro. O que me fere é a descoberta desta equivalência. Diante da foto da minha mãe criança, digo para mim mesmo: ela vai morrer. Estremeço, como o psicótico de Winnicott, perante uma catástrofe que já aconteceu. Quer o sujeito tenha ou não morrido, toda a fotografia é esta catástrofe.»

 

______

Cits. ROLAND BARTHES, 'O Tempo como Punctum', A Câmara Clara, 1989: Edições 70, Arte & Comunicação, Lisboa.

 

 

 

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