ANTERO DE ALDA Photography Recent Works


A Communist Christmas

{with gold, incense and myrrh}



Children of Ceausescu 1997




For many years after being executed, Nicolae Ceausescu caused yet stranger nostalgia; on the one hand by the severe nature in which he punished the small common crimes — which benefited the public and so it continued to be practiced after the revolution — and on the other hand, because he had long abandoned "The Red Orchestra" (Gilles Perrault), which for some meant that it could no longer be categorically said what was common in Eastern countries: «essentially, nothing new. Headquarters in Moscow.»


In addition to political crimes, which ended up in death or deportation, at the time of the former dictator, the Romanian Penal Code was so peculiar, that the theft of a simple appliance was sentenced up to 15 years in prison. And although infamous by their refined cruelty (many prisoners developed incurable ulcers because of rotten food poisoning, died of hunger, cold or ill-treatments), the truth is that in jails in Romania prisoners rarely did the entire time of their sentences, since it was customary to grant broad amnesties on the anniversaries of the President and on the dates of the Party’s Congresses. In 1977 the dictator Ceausescu ordered the release of thousands of prisoners, closed 50 jails, 3 hospital jails and 2 sanatoriums, arguing that in «a new society, there are only new men». New or old, women or children, the common Romanian citizen — compliant with its obligations and even inattentive to the vices of politics — was relentlessly punished: in Ceausescu's time, the whole country was a violent prison.



Nicolae Ceausescu was born in 1918 in the small town of Scornicesti, in southern Romania, son of a peasant family, according to his official biography. He later joined the Union of Communist Youth in 1933, and three years later he joined the Romanian Communist Party. He integrated the Central Committee in 1952 and by 1956 was a part of the Politburo. In 1965 he was appointed general secretary of the Party and then became one of the most bloodthirsty Communist leaders of Eastern Europe, as far as to dare to face the tyranny of his native homeland (the «Moscow headquarters»).


On the ashes of 30 000 dwellings (one-third of Bucharest), he built a luxury palace, ironically called the People's House, the House Poporului, coated with the rarest marbles from Transylvania among many other extravagances and only comparable in magnitude to the premises of the Pentagon.


Strategically against the invasion of Czechoslovakia in 1968, he received Nixon's visit in 1969, which granted him the benefits of a «good communist». After that, he was received with glory in the great capitals of Europe, Asia and Latin America by presidents and monarchs: the very Queen Mother of England awarded him a Royal Medal in 1978.



Nicolae, the «genius of the Carpathians» and his wife Elena ("Madame CO2", as sarcastically she was treated when she achieved the direction of the National Institute for Chemical Research) were killed on December the 25th. The firing squad waited three long days to draw their weapons. The trial lasted 55 minutes.


The execution took place around 4 pm, in Targoviste, 50 km from Bucharest, and in the evening of that same Christmas Day, in 1989, state television showed the Romanians the result of over a hundred machine gun shots programmed in distance by meticulous marksmanship, to not mutilate the dictator's face. Certainly, the communists from Securitate needed brutal images that revealed to the people, unequivocally, the identity of the corpses and the wounded pride of the old Soviet order.


It is obvious that no one else would think of killing on Christmas Day, only the Communists!



Precisely four days earlier, the Dutch Commissioner Frans Andriessen, on the service of capitalist Europe, had publicly said on the subject of Romania: «The European Commission is determined to encourage a peaceful transition to a pluralistic political and economic system in this country...» ("Echo de la Bourse", Journal of Brussels, 21.12.1989).



"The Red Orchestra"

Or «L'Orchestre Rouge», 1964. Title of a book by the French writer Gilles Perrault, in fact, Peyrol Jacques, born in 1931. «L'Orchestre Rouge» (Die Rote Kapelle in German) was also the name of the network of Soviet informants who moved amongst the troops of Hitler and the resistance groups from various countries of Europe, during World War II. Maybe that's why Jacques Peyrol was repeatedly accused of espionage for the former USSR. «L'Orchestre Rouge» is also the title of a film by Jacques Rouffio, directed in 1989, based on the work of Perrault.


"In essence and once again nothing new. Headquarters in Moscow."

João Bénard da Costa, Portuguese writer and cinephile (1935-2009), on the magazine O Tempo e o Modo, March-April 1969, concerning the Russian invasion of Czechoslovakia after the "Prague Spring".


"in a new society, there are only new men"

Quote from Ceausescu, according to journalist Luísa Meireles, on the newspaper EXPRESSO, October 21st 1991.


English version 


Antero de Alda: Câmara Antiga (Bucareste, 1989 — um natal comunista)








  Post 055 -  Julho de 2011  


foto: Carlos Vilela 2010



pesquisar neste blog




o editor pergunta-me...

          [ a reserva de Mallarmé ]





o ministro foi às putas de pequim

manual de sobrevivência [ XXV ]

o comboio de... Cristina Peri Rossi

o tesoureiro de Leipzig

manual de sobrevivência [ XXIV ]

manual de sobrevivência [ XXIII ]

manual de sobrevivência [ XXII ]

e o lado oculto da Europa...

a Espanha oculta de...

          [ Cristina García Rodero ]

o cortejo dos amortalhados

EU — only for rich

a essência do Capitalismo

a essência de um Capitalista

os filhos do Diabo

manual de sobrevivência [ XXI ]

ódio à Democracia [ III ]

ódio à Democracia [ II ]

ódio à Democracia [ I ]

Warhol [ 85 anos ]

manual de sobrevivência [ XX ]

manual de sobrevivência [ XIX ]

manual de sobrevivência [ XVIII ]

taitianas de Gauguin

retratos de Van Gogh

nunca serei escravo de nenhum terror

as coisas [ Jorge Luis Borges ]

manual de sobrevivência [ XVII ]

manual de sobrevivência [ XVI ]

Portugal, noite e nevoeiro

o corno de Deus

manual de sobrevivência [ XV ]

manual de sobrevivência [ XIV ]

manual de sobrevivência [ XIII ]

a filha de Galileu

um museu para o Eduardo

manual de sobrevivência [ XII ]

manual de sobrevivência [ XI ]

Torricelli, Pascal, Hobbes, razão, utopia e claustrofobia

manual de sobrevivência [ X ]

manual de sobrevivência [ IX ]

os diabos no quintal

     [ histórias de homens divididos

       entre muitos mundos ]

o pobre capitalismo...

as Madalenas de Caravaggio

manual de sobrevivência [ VIII ]

o alegre desespero [ António Gedeão ]

manual de sobrevivência [ VII ]

manual de sobrevivência [ VI ]

manual de sobrevivência [ V ]

manual de sobrevivência [ IV ]

manual de sobrevivência [ III ]

sombras [ José Gomes Ferreira ]

Phoolan Devi [ a valquíria dos pobres ]

schadenfreude [ capitalismo e inveja ]

a vida não é para cobardes


a III Grande Guerra


EU — die 27 kühe [ as 27 vacas ]

europa tu és uma puta!


o daguerreótipo de Deus...

o honrado cigano Melquíades...

cem anos de solidão...

manual de sobrevivência [ II ]

o salvador da América [ Allen Ginsberg ]

o salvador da América [ Walt Whitman ]

[ revolução V ] as mães do Alcorão

[ revolução IV ] paraíso e brutalidade

[ revolução III ] andar para trás...

[ revolução II ] para onde nos levam...

[ revolução I ] aonde nos prendem...

o problema da habitação

cartas de amor

a herança de Ritsos

as piores mentiras

elegia anti-capitalista

da janela de Vermeer

manual de sobrevivência [ I ]

de novo o Blitz...

antes de morrer

as valquírias

forretas e usurários

           [ lições da tragédia grega ]

Balthus, o cavaleiro polaco

abençoados os que matam...

diário kafkiano

Bertrand Russell: amor e destroços

U.E. — game over

DSK: uma pila esganiçada



o tempo e a eternidade

Bucareste, 1989: um Natal comunista


o Homem, a alma, o corpo e o alimento

          [ 1. a crise da narrativa ]

          [ 2. uma moral pós-moderna? ]

          [ 3. a hipótese Estado ]

o universo (im)perfeito

mural pós-moderno

Lisboa — saudade e claustrofobia

          [ José Rodrigues Miguéis ]

um cancro na América

Marx, (...) capital, putas e contradições

ás de espadas

pedras assassinas

Portugal — luxúria e genética

rosas vermelhas

Mozart: a morte improvável

1945: garrafas

1945: cogumelos

bombas de açúcar

pão negro

Saramago: a morte conveniente

os monstros e os vícios

porcos e cinocéfalos

o artifício da usura

a reserva de Mallarmé

o labirinto

os filhos do 'superesperma'

a vida é uma dança...

a puta que os pariu a todos...

walk, walk, walk [Walter Astrada]

Barthes, fotografia e catástrofe

Lua cheia americana [Ami Vitale]

a pomba de Cedovim

o pobre Modigliani

o voo dos pimparos

o significante mata?

a Europa no divã

a filha de Freud

as cores do mal

as feridas de Frida

perigosa convivência

—querida Marina! («I'm just a patsy!»)

a grande viagem...

histoire d'une belle humanité

o coelhinho foragido

o sono dos homens...

«propriedade do governo»

os dois meninos de O'Donnell

o barco dos sonhos

farinha da Lua

o enigma de Deus

«nong qua... nong qua...»

«vinho de arroz...»

magnífica guerra!

a lei do Oeste...

Popper (1902-1994)







os dias todos iguais, esses assassinos...


Bucareste, 25 de Dezembro de 1989

um natal comunista


{ com ouro, incenso e mirra }




Children of Ceausescu 1997




Durante muitos anos depois de ter sido executado, Nicolae Ceausescu provocou ainda estranhas nostalgias, por um lado pelo carácter severo com que castigava os pequenos delitos comuns — coisa que beneficiava a ordem pública e por isso continuou a praticar-se após a revolução —, e por outro lado porque há muito tempo abandonara já "A Orquestra Vermelha" (Gilles Perrault), o que para alguns fazia com que dele não se pudesse dizer, categoricamente, o que era normal nos países do Leste: «no essencial nada de novo. Quartel-general de Moscovo.»


Para além dos delitos políticos, que acabavam em mortes ou deportações, no tempo do antigo ditador era tão peculiar o Código Penal romeno, que o roubo de um simples electrodoméstico chegava a ser sentenciado com 15 anos de cadeia. E embora afamadas de refinada crueldade (muitos presos ficavam com úlceras incuráveis por causa da comida estragada, quando não morriam de fome, frio ou maus tratos), a verdade é que nas cadeias da Roménia raramente se cumpria o cúmulo das penas, pois era habitual concederem-se amplas amnistias nos aniversários do presidente e nas datas dos congressos do Partido. Em 1977 o ditador Ceausescu ordenou a libertação de milhares de prisioneiros, encerrou 50 cadeias, 3 hospitais presidiários e 2 sanatórios, argumentando que «numa sociedade nova só há homens novos». Novos ou velhos, mulheres ou crianças, o comum cidadão romeno — cumpridor das suas obrigações e mesmo alheio aos vícios da política — foi impiedosamente castigado: no tempo de Ceausescu todo o país era uma violenta prisão.







Nicolae Ceausescu nasceu em 1918 na pequena localidade de Scornicesti, no sul da Roménia, filho de uma família de camponeses segundo a biografia oficial. Filiou-se depois na União da Juventude Comunista, em 1933, e três anos mais tarde no Partido Comunista Romeno. Entrou para o Comité Central em 1952 e em 1956 já fazia parte do Politburo. Em 1965 foi nomeado secretário-geral do Partido e daí se transformou num dos mais sanguinários líderes comunistas do Leste, ao ponto de ousar enfrentar a tirania da própria pátria materna (o «quartel-general de Moscovo»).


Sobre as cinzas de 30 mil habitações (um terço de Bucareste), mandou construir um fausto palácio, ironicamente designado por Casa do Povo, a Casa Poporului, revestida com mármores raros da Transilvânia entre muitas outras catalogáveis extravagâncias e só comparável em grandeza às instalações do Pentágono.


Estrategicamente contrário à invasão da Checoslováquia em 1968, recebeu a visita de Nixon em 1969, que lhe concedeu benefícios devidos a um «comunista bom». Depois disso, foi recebido com glória nas grandes capitais da Europa, Ásia e América por presidentes e monarcas: a própria Rainha-Mãe da Inglaterra atribuiu-lhe uma Medalha Real em 1978.







Nicolae, o «génio dos Cárpatos», e a sua mulher Elena («Madame CO2», como sarcasticamente foi tratada quando chegou à direcção do Instituto Nacional de Pesquisa Química) foram mortos a 25 de Dezembro. O pelotão de fuzilamento esperou três longos dias para desembainhar as armas. O julgamento durou 55 minutos.


A execução deu-se por volta das 4 horas da tarde, em Târgoviste, a 50 km de Bucareste, e na noite desse mesmo dia de Natal de 1989 a televisão do Estado mostrou aos romenos o resultado de mais de uma centena de tiros de metralhadora, ainda assim programados à distância com meticulosa pontaria, para não desfigurarem o rosto do ditador. Certamente, os comunistas da Securitate precisavam de imagens brutais que revelassem ao povo, inequivocamente, a identidade do cadáver e o orgulho ferido da velha ordem soviética.

É óbvio que mais ninguém se lembraria de matar no dia de Natal, só os comunistas!







Exactamente quatro dias antes, o comissário holandês Frans Andriessen, ao serviço da Europa capitalista, havia dito publicamente a propósito da Roménia: «A Comissão Europeia está decidida a encorajar a passagem pacífica a um sistema económico e político pluralista neste país...» ("Echo de la Bourse", jornal de Bruxelas, 21/12/1989).



"A Orquestra Vermelha"

Ou «L'Orchestre Rouge», 1964. Título de um livro do escritor francês Gilles Perrault, aliás, Jacques Peyroles, nascido em 1931. «L'Orchestre Rouge» (Die Rote Kapelle em alemão) era também o nome da rede de informadores soviéticos que se movimentavam entre as tropas de Hitler e os grupos de resistência de vários países da Europa durante a II Guerra Mundial. Talvez por isso Jacques Peyroles foi por diversas vezes acusado de espionagem a favor da ex-URSS. «L'Orchestre Rouge» é ainda o título de um filme de Jacques Rouffio, realizado em 1989 a partir da obra de Perrault.


"no essencial e uma vez mais nada de novo. Quartel-general de Moscovo."

João Bénard da Costa, escritor e cinéfilo português (1935-2009), na revista O Tempo e o Modo, Março-Abril de 1969, a propósito da invasão russa à Checoslováquia depois da «Primavera de Praga».


"numa sociedade nova só há homens novos"

Citação de Ceausescu segundo a jornalista Luísa Meireles no jornal EXPRESSO de 21 de Outubro de 1991.




anterior  |  início  |  seguinte



A alma tem muitos inquilinos

que estão frequentemente em casa todos ao mesmo tempo.



webdesign antero de alda, desde 2007