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  Post 031 -  Maio de 2010  

 

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o labirinto

 

 

 

“É assustador como as personagens de Dostoievski nos abrem caminho até Deus através do pecado”.

VLADIMIR NABOKOV 1

 

 

 

foto GEORGES MERILLON/GAMMA Photo Agency, Kosovo, 1990.

 

Mas porquê a Arte, se estamos hoje presos duma crise de valores, se a modernidade se apresenta tão enferma de violência e de injustiça a que se deveriam suceder — em vez de Beleza — indignação e revolta?

 

 

 

No dia 21 de Novembro de 2009 o Vaticano recebeu centenas de artistas de todo o mundo para um encontro com o Papa. Pouco depois da imensa comitiva de Criadores atravessar o Braço de Constantino, entre o Portão de Bronze e a escadaria Régia até à Capela Sistina (como o haviam feito outros tantos com Paulo VI há 45 anos atrás), o Sumo Pontífice exultou com as seguintes palavras: «O que é que pode voltar a dar entusiasmo e confiança, o que é que pode encorajar o ânimo humano a reencontrar o seu caminho, a erguer o olhar além do horizonte imediato, a sonhar uma vida digna da sua vocação se não a Beleza?»

 

Atravessando milénios de conhecimento (de Platão a Simone Weil, Hermann Hesse, Dostoievski...), o que está implícito no discurso de Bento XVI é a ideia de que a Arte se impõe como caminho para chegar a Deus.

 

 

 

«Para que poetas em tempo de indigência?» — HÖLDERLIN

 

Mas porquê a Arte, se estamos hoje presos duma crise de valores, se a modernidade se apresenta tão enferma de violência e de injustiça a que se deveriam suceder —  em vez de Beleza — indignação e revolta?

 

A resposta vem de Dostoievski, pois: «A beleza salvará o mundo», disse o príncipe Mishkin, de 'O Idiota', em 1869. Mas — lembremo-nos — Dostoievski era um escritor tão repugnante, que até a velha pátria soviética e o próprio Tolstoi o negligenciaram: para que lhes serviria um tão mau exemplo de eremita bíblico?

 

Se estiver certo o que disse um dia Nabokov («É assustador como as personagens de Dostoievski nos abrem caminho até Deus através do pecado»), afinal, no imenso labirinto em que nos perdemos, estamos todos próximos uns dos outros; só não sabemos derrubar os muros que nos separam ou escolher os caminhos a seguir para nos encontrarmos.

 

____

1 Citação livre. Para além da inveja (que provinha da sua incorrigível vaidade), era esta a grosseira opinião que Nabokov tinha do demoníaco Dostoievski.

 

 

 

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