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«Desde há anos que a coisa Berlusconi tem vindo a cometer delitos de
variável mas sempre demonstrada gravidade. Além disso, não só tem
desobedecido a leis como, pior ainda, as tem mandado fabricar para
salvaguarda dos seus interesses públicos e particulares, de
político, empresário e acompanhante de menores (...)
«Este é o caminho da ruína para onde estão a ser levados por arrastamento os valores que liberdade e dignidade impregnaram a música de Verdi e a acção política de Garibaldi, esses que fizeram da Itália do século XIX, durante a luta pela unificação, um guia espiritual da Europa e dos europeus...»
JOSÉ SARAMAGO, Nobel da Literatura 1998

Berlusconi com a mulher, Veronica
Lario.
foto SUSAN WALSH/AP,
2004.
Sílvio Berlusconi (72), o controverso primeiro-ministro
italiano, está em processo de divórcio, porque a «sua» mulher não terá suportado as
sucessivas infidelidades. O escândalo (se é de escândalo que se
fala...) envolve
jovens desfloráveis e outras acompanhantes menos castas, que se
fizeram pagar para satisfazer as catarses do novo Calígula
de Roma. A notícia daria um medíocre folhetim passional (duvida-se
que os círculos do poder admitam que algumas das raparigas eram
menores de idade), não
fosse a velha comunidade continental ser ameaçada pela invasão de 22 jovens
actrizes, bailarinas e modelos nas listas do partido do Povo pela
Liberdade ao Parlamento
Europeu. Pasquale Della Torca, um jornalista italiano conhecido por
denunciar a preferência de Berlusconi por 'meninas de calendário',
naturalmente preocupado com «o nosso país, os nossos jovens e os
nossos ideais», admite: «Siamo al caso psichiatrico» (somos um caso psiquiátrico).
A Europa é, ainda, falocêntrica. Contrariamente às
expectativas de décadas sucessivas de convívio com a simbologia
psicanalítica, certas personagens desta geografia política parecem
não saber ainda esconder os seus interesses em 'máscaras', tratar as pulsões libidinais como 'metáforas', libertar-se do desejo
reprimido pelo controlo dos 'prazeres'. O que sucede a este desprezo
pela linguagem é um retorno ao primitivo freudiano. E também a Lacan — «La
femme n'existe pas» —, talvez porque, em Itália como na França (Sarkozy,
também ele, separado da «sua» mulher, trocada por uma modelo de
segunda geração) o corpo funcional não é sexuado e, como diria Baudelaire (Mon Coeur Mis à Nu, 1897), «A mulher tem fome
e quer comer, tem sede e quer beber, está com cio e quer ser fodida.»
Mas o nome de Veronica Lario tem lugar de destaque
nesta história. Porque se, para os líderes da União, o corpo
funcional (feminino) não é sexuado, para a mulher de Berlusconi o
corpo sexuado nem sempre é funcional. Assim, quando o edifício do
Parlamento Europeu se preparava para se transformar numa gigantesca
sala de espelhos e as libidinosas deputadas petrificadas em
pedestais como inúteis deusas da mitologia grega, a acção de Veronica foi
decisiva.
Mas a Europa — falocêntrica — ainda não está curada.
Retomando o anátema psicanalítico (não foi o despotismo dos líderes
do Leste, onde a psicanálise esteve proibida, atribuído à falta do «talking cure»?), os grandes líderes
da UE preocupam-se cada vez mais com os seus próprios umbigos e
encomendam o elixir da eterna juventude. Porque, como diria Freud na
sua famosa teoria das pulsões, o estado amoroso está
irreversivelmente ligado ao narcisismo.
Como se sabe, n'As Metamorfoses de Ovídeo,
Narciso, o auto-admirador, morre afogado na lagoa de Eco,
apaixonado pelo seu próprio reflexo. Lançar-se-á também Berlusconi,
por fim, às águas?
A Europa precisa de um divã.
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Eduardo Prado Coelho («Freud ainda mora aqui?», EXPRESSO/Revista,
23 de Setembro de 1989) refere que uma refracção da psicanálise nos
nossos dias deve incluir a «valorização do explícito em relação
ao oculto, ou do pensável em relação ao impensado.» Segundo uma
lógica determinista, não será por acaso que... Berlusconi simulou o
seu casamento na Sardenha com uma jovem que contratou para o efeito,
em 2008, a confiar no fotógrafo mexicano Antonello Zappadu, que
garante ter imagens do acontecimento. Trata-se,
naturalmente, de um exemplo de reescrita de Freud a partir da actual
linguagem da acção (ainda nos termos de EPC). Uma acção,
ainda assim, que pode ser interpretada como 'substitutiva': o sujeito transfere-se para outro lugar onde pode
satisfazer, no imaginário, um desejo reprimido.
As fotografias de Zappadu foram confiscadas pelos tribunais
italianos, o que tanto compromete politicamente a justiça
na União Europeia como dá razão a Saramago: a 'coisa', como o Nobel
da Literatura chama a Berlusconi, «não só tem desobedecido a leis como, pior ainda, as tem mandado fabricar para salvaguarda dos seus interesses públicos e particulares, de político, empresário e acompanhante de menores...»
O próximo sonho
O próximo sonho de Berlusconi é ser Nobel da Paz, para o que alguns
dos seus caciques já estão a trabalhar. Veremos se haverá, então,
alguma lógica determinista baseada na acção que comprometa o
Parlamento norueguês (que nomeia os membros do Comité do Nobel) com
tamanha pulsão, tão execrável neurose.

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