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[
revolução II ]
para onde
nos levam...
«Vem por aqui» — dizem-me alguns com os
olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui!»
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
JOSÉ
RÉGIO
Cântico Negro
É Abril outra vez. 38 anos depois da
Revolução [1974], vivo entusiasmado com a esperança de ver um dia destes
o povo tomar de assalto o Parlamento, a PT e a EDP, a GALP, a Brisa, a Lusoponte,
os hospitais público-privados...
Mas, lá no fundo, sei que (como dizem
que disse Saint-Just) «quem faz
meia revolução cava a sua própria sepultura.»

foto
EDUARDO
GAGEIRO
Abril de 1974.
retrato dos dias ao
avesso
1.
The drunken
bicycle
Frank Ward
é um consagrado fotógrafo norte-americano, nascido em 1949, professor
no departamento de artes visuais do Holyoke Community College, em
Massachusetts. Desde 2005, tem viajado com regularidade pela Rússia,
Ucrânia, Uzbequistão, Tajiquistão e outros países do Leste em busca
dos sinais das mudanças ali operadas após a Perestroika. Conta que,
certo dia, numa praça de uma cidade na Sibéria, encontrou um homem que alugava a sua bicicleta aos turistas para pequenos passeios. Como ele diz, tratava-se de uma bicicleta bêbada («the drunken bicycle»), porque
sempre que rodava o volante para a direita ela andava para a
esquerda e sempre que rodava o volante para a esquerda ela virava à
direita... O homem da bicicleta garantia que era fácil andar sobre
ela, mas arriscava oferecer cerveja a quem conseguisse aguentar-se alguns metros sem cair...
«The drunken bicycle» é uma metáfora sobre a vida nos países da antiga União Soviética, balançando entre as inúmeras possibilidades de mudança e o
poderoso 'status' social.
E enquanto os turistas registam com um sorriso o retrato de Putin numa enorme carpete à venda em Irkutsk, na Sibéria, ou uma pintura de Marilyn numa parede de Vladivostok, junto à fronteira norte-coreana, os habitantes locais experimentam as contradições de um tempo em mudança, que é simultaneamente
um tempo de paixão e de dor.
retrato dos dia ao
avesso
2.
Winterground
Thatcher
Cook (Thatcher Hullerman Cook) é outro fotógrafo norte-americano,
que reparte a sua principal residência entre Westbrook, no Maine,
perto da fronteira com o Canadá, e Nova Iorque. Da sua larga experiência
de viajante conta que no Azerbaijão conheceu um lugar a que chamavam
"Winterground", para onde os pastores se deslocavam todos os invernos com o gado. A partir de 1990, quando estalou a guerra com a Arménia, os pastores foram impedidos de regressar às suas casas em Nagorno-Karabakh
e passaram a viver definitivamente no "Winterground", em residências rudimentares muitas vezes cavadas no chão e cobertas com arbustos.
Muitas das fotografias de Thatcher Cook reflectem também esta fábula moderna de pessoas que em diferentes lugares do mundo vivem suspensas num tempo e num território que não é o seu...
[ revolução I ] aonde nos prendem...
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«Ó Portugal, se fosses só três sílabas, / Linda vista para o mar
(...) / Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
/ rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
/ não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
/ galo que cante a cores na minha prateleira,
/ alvura arrendada para o meu devaneio,
/ bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
/ Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
/ golpe até ao osso, fome sem entretém, /
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
/ rocim engraxado,
/ feira cabisbaixa,
/ meu remorso,
/ meu remorso de todos nós...» ALEXANDRE O'NEILL

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