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Pedrário,
Vilar de Perdizes, Vila da Ponte e Mourilhe
MONTALEGRE
Os pobres não têm fé
SLIDESHOW
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A HISTÓRIA DE ANA
Casou aos 13 e aos 15 já tinha dois filhos. Ao todo pariu dezoito
vezes...
«Ser parideira é uma canseira!» — diz. Sobreviveram seis: quatro
rapazes e duas raparigas.
«E você, quantos filhos tem? Três? Tudo rapazes? Tem sorte, não lhe vêm
parir a casa...»
VILA DA PONTE, MONTALEGRE
Maio de 2010 |
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Em Vilar de
Perdizes, a poucos quilómetros de Montalegre, o Padre António Fontes
pode estar a fazer uma das suas últimas visitas pascais. Em tempos
passados as pessoas recebiam o 'Compasso' com tapetes de flores, mas
agora já são poucos os que abrem as portas para beijar a cruz.
Ali perto, em
Pedrário, a bonita igreja de estilo românico mantém-se fechada. Nesta
aldeia, a visita pascal já só se realiza de dois em dois anos.
Albina
Teixeira não vai à missa, que se realiza na aldeia vizinha de
Sarraquinhos. Já perdeu a conta aos anos que viveu e está prestes a
perder também a fé...
PEDRÁRIO e VILAR DE PERDIZES, MONTALEGRE
Abril de 2009 |
Regresso a
Mourilhe: Graça
Teixeira
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| GÉRARD FOUREL,
anos 1980 |
ANTERO DE ALDA,
2009 |
«Le Barroso peut s'enorgueillir d'ètre un des
derniers lieux ou le mot Humanité a un sens.»
Gérard FOUREL
HISTOIRE D'UNE
BELLE HUMANITÉ
Vilarinho Seco, Negrões, Aldeia Grande,
Alturas do Barroso e Cerdedo
Dinheiro do vento...
SLIDESHOW
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Já quase não há gado. Nem linho,
nem lã, nem roca.
Agora a gente negoceia com o vento…
As eólicas estão espalhadas por toda a montanha.
Nos campos em volta da pequena capela de Santo Isidro, no alto
da Pena Franga, bem à vista dos três cornos do Barroso (os
majestosos cabeços que o diabo desenhou na montanha com a forma
de chifres de bovino), junta-se
grande parte do gado da aldeia para ser benzido durante a
procissão ou simplesmente para cumprir promessas devidas por
louvores recebidos, porque aqui o povo ainda tem fé.
O padre auxiliar, antigo missionário em África que decidiu calcorrear estas serras desde Viseu, faz o elogio do santo lavrador e da festa simples, e aproveita a oratória para avisar sobre os males da cobiça e da avareza: «Vejam o que se passa no nosso país, assaltado por uma onda de corrupção sem fim, envolvendo grandes políticos e banqueiros que não hesitam em vender a alma para fazerem fortunas incríveis à custa do suor dos pobres.»
Adivinha-se do sermão da missa de Pentecostes que o povo já não teme somente os males naturais (os fenómenos que mais impressionam a fantasia do homem: o fogo, o relâmpago, o furacão, o terramoto, os trovões... Ez. 37, 1-14 ), usados na Bíblia para contar as manifestações de Deus...
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Regresso a
Negrões:
Américo
e
Maria Luísa
Gabriel
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GÉRARD FOUREL,
1980 |

ANTERO DE ALDA,
2009 |
Vila Nova
A celebração da Primavera
SLIDESHOW
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Em Vila Nova, no Barroso, a Primavera dá-se numa folha de carvalho: a oferta é levada de casa em casa e entregue em mão pelas crianças – os duendes —, que circulam entre mostrengos, velhas desconfiadas que vestem de preto, carneiros, javalis, lobos, corujas e muitos outros animais da fauna local que povoam as lendas e os contos dos antepassados.
Nesta aldeia escondida numa encosta sombria entre o Cávado e o Rabagão, às portas de Sidrós, no Gerês, e muito perto da Misarela (a famosa ponte que tem fama de boa parideira e onde
Deus se cruza com o Diabo para resgatar as almas), há ruas e casas às
quais o sol não chega durante três longos meses do ano.
Tânia, escolhida entre as mais vistosas e
simpáticas raparigas da freguesia, veste para este ritual carnavalesco a indumentária
principal, com motivos fitomórficos: raízes, musgo, caules, folhas e
flores, celebrando o fim do Inverno, dos tempos da abstinência da terra
e das fracas colheitas. Chamam-lhe Primavera.
VILA NOVA, MONTALEGRE
Fevereiro de 2010
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Vilarinho de Negrões
Cipriano Martins &
Josefina Seara
SLIDESHOW
Cipriano é marido de Josefina. Quando o encontrei estava a dormir em cima
do carro do burro, debaixo do alpendre. Mas os seus olhos não são da sesta
nem do súbito despertar: um acidente tirou-lhe uma vista quando ainda era
novo e as cataratas vão-lhe minando a outra. Se não se tratar, dentro em
pouco poderá ficar completamente cego.
Josefina foi a primeira a ver-me: estava a comer um
iogurte. Cumprimentou-me, sorriu, olhou para o marido que estava por baixo
do alpendre e disse:
«Acorda, Cipriano, que está aqui um senhor que te quer tirar o retrato!»
Logo
que me viu, Cipriano sentou-se e começou a dar palmadas na cara para
apanhar as moscas: esmagava-as meticulosamente escorregando os dedos sobre
a palma da mão e depois deixava-as cair, moribundas, para o chão.
«Deve-se estar sempre bêbado.
É a única questão.
Afim de não se sentir o fardo horrível do tempo,
que parte tuas espáduas
e te dobra sobre a terra.
É preciso que te embriagues
sem trégua.»
BAUDELAIRE
«Ele
brada cravem mais fundo na terra vocês aí cantem e toquem
agarra a arma na cinta brande-a seus olhos são azuis
cravem mais fundo as pás vocês aí continuem tocando para dançar
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos de noite nós bebemos
bebemos…»
‘Fuga da morte’
«Ela sabe as palavras mas limita-se a sorrir.
Mistura o seu sorriso no cálice de vinho:
Tens de o beber, para estar no mundo.»
‘Sete rosas mais tarde’
PAUL CELAN
Regresso a Vilarinho
Reencontro com Josefina e
Cipriano
Nov2007

Cipriano lava a louça.
Sentada no banco em frente da lareira, a
sua esposa, Josefina, espera pela ambulância que a irá levar ao hospital
mais próximo, a cerca de 60 km de distância; ela teve há pouco tempo um
acidente vascular cerebral que a deixou paralisada. A ambulância pode vir
hoje, ou depois de amanhã ou só na próxima semana.
No interior norte de Portugal os serviços
médicos são racionados: as pequenas urgências estão a ser encerradas, como
os centros de saúde e as maternidades.
Cipriano também está doente: praticamente
cego, sofre agora de dores nas pernas.
Há pouco mais de um ano
atrás, quando os visitei pela primeira vez, estavam com mais saúde e mais
bem dispostos.
Cipriano e Josefina partiram com os
filhos para França em Junho de 2008.
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