ANTERO DE ALDA BARROSO 2

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som de entrada OS REIS (ext.) Chaves, 1986

Pedrário, Vilar de Perdizes, Vila da Ponte e Mourilhe MONTALEGRE

Os pobres não têm fé    SLIDESHOW 

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A HISTÓRIA DE ANA


Casou aos 13 e aos 15 já tinha dois filhos. Ao todo pariu dezoito vezes...

«Ser parideira é uma canseira!» — diz. Sobreviveram seis: quatro rapazes e duas raparigas.

 

«E você, quantos filhos tem? Três? Tudo rapazes? Tem sorte, não lhe vêm parir a casa...»

 

VILA DA PONTE, MONTALEGRE
Maio de 2010

 

 

 

 

 

Em Vilar de Perdizes, a poucos quilómetros de Montalegre, o Padre António Fontes pode estar a fazer uma das suas últimas visitas pascais. Em tempos passados as pessoas recebiam o 'Compasso' com tapetes de flores, mas agora já são poucos os que abrem as portas para beijar a cruz.

 

 

Ali perto, em Pedrário, a bonita igreja de estilo românico mantém-se fechada. Nesta aldeia, a visita pascal já só se realiza de dois em dois anos.

Albina Teixeira não vai à missa, que se realiza na aldeia vizinha de Sarraquinhos. Já perdeu a conta aos anos que viveu e está prestes a perder também a fé...

 

PEDRÁRIO e VILAR DE PERDIZES, MONTALEGRE
Abril de 2009

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Regresso a Mourilhe: Graça Teixeira

GÉRARD FOUREL, anos 1980 ANTERO DE ALDA, 2009

 

«Le Barroso peut s'enorgueillir d'ètre un des derniers lieux ou le mot Humanité a un sens.» Gérard FOUREL

HISTOIRE D'UNE BELLE HUMANITÉ

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vilarinho Seco, Negrões, Aldeia Grande,

Alturas do Barroso e Cerdedo

Dinheiro do vento...    SLIDESHOW 

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Já quase não há gado. Nem linho, nem lã, nem roca.

Agora a gente negoceia com o vento… As eólicas estão espalhadas por toda a montanha.

 

 

Nos campos em volta da pequena capela de Santo Isidro, no alto da Pena Franga, bem à vista dos três cornos do Barroso (os majestosos cabeços que o diabo desenhou na montanha com a forma de chifres de bovino), junta-se grande parte do gado da aldeia para ser benzido durante a procissão ou simplesmente para cumprir promessas devidas por louvores recebidos, porque aqui o povo ainda tem fé.

 

O padre auxiliar, antigo missionário em África que decidiu calcorrear estas serras desde Viseu, faz o elogio do santo lavrador e da festa simples, e aproveita a oratória para avisar sobre os males da cobiça e da avareza: «Vejam o que se passa no nosso país, assaltado por uma onda de corrupção sem fim, envolvendo grandes políticos e banqueiros que não hesitam em vender a alma para fazerem fortunas incríveis à custa do suor dos pobres.»

 

Adivinha-se do sermão da missa de Pentecostes que o povo já não teme somente os males naturais (os fenómenos que mais impressionam a fantasia do homem: o fogo, o relâmpago, o furacão, o terramoto, os trovões... Ez. 37, 1-14 ), usados na Bíblia para contar as manifestações de Deus...

 

 

 

 

 

 

Regresso a Negrões: Américo e Maria Luísa Gabriel

GÉRARD FOUREL, 1980

ANTERO DE ALDA, 2009

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vila Nova

A celebração da Primavera    SLIDESHOW 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em Vila Nova, no Barroso, a Primavera dá-se numa folha de carvalho: a oferta é levada de casa em casa e entregue em mão pelas crianças – os duendes —, que circulam entre mostrengos, velhas desconfiadas que vestem de preto, carneiros, javalis, lobos, corujas e muitos outros animais da fauna local que povoam as lendas e os contos dos antepassados.

 

Nesta aldeia escondida numa encosta sombria entre o Cávado e o Rabagão, às portas de Sidrós, no Gerês, e muito perto da Misarela (a famosa ponte que tem fama de boa parideira e onde Deus se cruza com o Diabo para resgatar as almas), há ruas e casas às quais o sol não chega durante três longos meses do ano.

 

Tânia, escolhida entre as mais vistosas e simpáticas raparigas da freguesia, veste para este ritual carnavalesco a indumentária principal, com motivos fitomórficos: raízes, musgo, caules, folhas e flores, celebrando o fim do Inverno, dos tempos da abstinência da terra e das fracas colheitas. Chamam-lhe Primavera.

 

VILA NOVA, MONTALEGRE
Fevereiro de 2010

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vilarinho de Negrões

Cipriano Martins & Josefina Seara    SLIDESHOW 

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Cipriano é marido de Josefina. Quando o encontrei estava a dormir em cima do carro do burro, debaixo do alpendre. Mas os seus olhos não são da sesta nem do súbito despertar: um acidente tirou-lhe uma vista quando ainda era novo e as cataratas vão-lhe minando a outra. Se não se tratar, dentro em pouco poderá ficar completamente cego.

 

Josefina foi a primeira a ver-me: estava a comer um iogurte. Cumprimentou-me, sorriu, olhou para o marido que estava por baixo do alpendre e disse: «Acorda, Cipriano, que está aqui um senhor que te quer tirar o retrato!»

 

 

Logo que me viu, Cipriano sentou-se e começou a dar palmadas na cara para apanhar as moscas: esmagava-as meticulosamente escorregando os dedos sobre a palma da mão e depois deixava-as cair, moribundas, para o chão.

 

 

«Deve-se estar sempre bêbado.
É a única questão.
Afim de não se sentir o fardo horrível do tempo,
que parte tuas espáduas
e te dobra sobre a terra.
É preciso que te embriagues
sem trégua.»

BAUDELAIRE

 

 

 

«Ele brada cravem mais fundo na terra vocês aí cantem e toquem agarra a arma na cinta brande-a seus olhos são azuis cravem mais fundo as pás vocês aí continuem tocando para dançar
Leite negro da madrugada nós te bebemos de noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos de noite nós bebemos bebemos…»

‘Fuga da morte’

«Ela sabe as palavras mas limita-se a sorrir.
Mistura o seu sorriso no cálice de vinho:
Tens de o beber, para estar no mundo.»

‘Sete rosas mais tarde’
PAUL CELAN

 

 

 

 

 

 

Regresso a Vilarinho

Reencontro com Josefina e Cipriano

Nov2007

 

 

 

 

Cipriano lava a louça.

Sentada no banco em frente da lareira, a sua esposa, Josefina, espera pela ambulância que a irá levar ao hospital mais próximo, a cerca de 60 km de distância; ela teve há pouco tempo um acidente vascular cerebral que a deixou paralisada. A ambulância pode vir hoje, ou depois de amanhã ou só na próxima semana.

No interior norte de Portugal os serviços médicos são racionados: as pequenas urgências estão a ser encerradas, como os centros de saúde e as maternidades.

Cipriano também está doente: praticamente cego, sofre agora de dores nas pernas.

Há pouco mais de um ano atrás, quando os visitei pela primeira vez, estavam com mais saúde e mais bem dispostos.

 

Cipriano e Josefina partiram com os filhos para França em Junho de 2008.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 

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