ANTERO DE ALDA OS POBRES NÃO TÊM FÉ 

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ALBINA TEIXEIRA

Em Vilar de Perdizes, a poucos quilómetros de Montalegre, o Padre António Fontes pode estar a fazer uma das suas últimas visitas pascais. Em tempos passados as pessoas recebiam o 'Compasso' com tapetes de flores, mas agora já são poucos os que abrem as portas para beijar a cruz. Ali perto, em Pedrário, a bonita igreja de estilo românico mantém-se fechada. Nesta aldeia, a visita pascal já só se realiza de dois em dois anos. Albina Teixeira não vai à missa, que se realiza na aldeia vizinha de Sarraquinhos. Já perdeu a conta aos anos que viveu e está prestes a perder também a fé...

Pedrário e Vilar de Perdizes - Montalegre, Abril de 2009

 

 

ETELVINA AZEVEDO

«Vi que todos os seres têm uma fatalidade de felicidade(...) A cada ser, várias outras vidas me pareciam devidas. A minha saúde foi ameaçada.»

RIMBAUD

 

Etelvina Azevedo (81). Foi preciso 'morrer' para criar os filhos (7 ao todo, 5 que sobreviveram), e agora que se aproxima o fim definitivo já não há vontade para uma segunda vida. A crise — ou o que queiram chamar-lhe, porque crise sempre existiu — está a pôr em causa a própria fé. Para o Capitalismo (como dizem Sponville e Rimbaud — e há tanta poesia trágica nas aldeias do interior!) a moral é uma fraqueza do cérebro. Aqui, há pouco dinheiro para investir em iniciativas solidárias. Para os idosos a ameaça da miséria é a dobrar: em muitos casos, já não há dinheiro para comprar medicamentos. Eis o triste resultado da estranha relação que temos connosco próprios, nas nossas preocupações com a vida, com a beleza e com o tempo que está para vir. A exuberância (ou a «fatalidade de felicidade») de alguns é a mutilação de muitos outros. É urgente parar para reflectir sobre isto.

PITÕES DAS JÚNIAS, Julho de 2010

 

 

HÁ FESTA NA ALDEIA!

Podem proibir o povo de andar de TGV, de pôr os pés nos campos de golfe, de ouvir Sokolov na Casa da Música ou de dar um passeio no Douro num cruzeiro de luxo, mas ninguém pode proibir o povo de ir à missa, rezar a Nossa Senhora da Aparecida ou ver a banda a passar à frente da porta da igreja. Ainda que, para lá das cabeças, das pernas e dos intestinos de cera oferecidos à santa, o povo venha aqui mais para ver setenta homens a carregar um andor de 20 metros, o maior do mundo — dizem —, digno de figurar no livro do Guinness! Afinal, pensem o que quiserem e digam o que disserem, mesmo sem dinheiro o povo também tem direito ao seu ridículo...

SENHORA DA APARECIDA Torno - Lousada, Agosto 2009

 

 

 

 

Nos campos em volta da pequena capela de Santo Isidro, no alto da Pena Franga, bem à vista dos três cornos do Barroso (os majestosos cabeços que o diabo desenhou na montanha com a forma de chifres de bovino), junta-se grande parte do gado da aldeia para ser benzido durante a procissão ou simplesmente para cumprir promessas devidas por louvores recebidos, porque aqui o povo ainda tem fé.

O padre auxiliar, antigo missionário em África que decidiu calcorrear estas serras desde Viseu, faz o elogio do santo lavrador e da festa simples, e aproveita a oratória para avisar sobre os males da cobiça e da avareza: «Vejam o que se passa no nosso país, assaltado por uma onda de corrupção sem fim, envolvendo grandes políticos e banqueiros que não hesitam em vender a alma para fazerem fortunas incríveis à custa do suor dos pobres.»

Adivinha-se do sermão da missa de Pentecostes que o povo já não teme somente os males naturais (os fenómenos que mais impressionam a fantasia do homem: o fogo, o relâmpago, o furacão, o terramoto, os trovões... Ez. 37, 1-14), usados na Bíblia para contar as manifestações de Deus...

Alturas do Barroso, Maio de 2009

 

 

 

«E agora ao senhor vamos dar uma pinga e um bocadinho de pão, quer? E um bocadinho de uma chicha ou de uma febrinha. Olhe que lho dou! Limpinho, o pãozinho é do padeiro e o presuntinho também é bom. Quer uma febrinha, que lhe dou? Olhe que eu dou-lha de boa mente...»

ANA BANDARRA (87) e LUCINDA PILOTO (82)

Pitões das Júnias, Junho 2011

 

 

«Olhe que ainda agora vim do monte com oito vacas e um boi tourão e quase vinte cabeças de rês e um jumento. A jumenta hoje não foi, que ele foi buscar uma carrada de milho com ela. E logo tornam a sair às 4 e meia/5 horas para o monte. Vêm depois às 8 horas para casa outra vez. Ainda ando com elas quase todos os dias. Ainda cheguei há pouco com elas. Foi ele... andamos a meter nas lojas, porque algumas estão paridas, têm os vitelos pequeninos, há lá um que já tem um vitelo para aí de 4 meses. Agora andam próximas mais a parir outra vez. Parem agora todas por aí fora... Temos o boi tourão... Temos tudo...»

DANIEL RUA Arcos de Cervos - Montalegre, Agosto de 2010

27 AGO 2010 0'46''

 

 

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