#167
OS
POBRES
NÃO
TÊM
FÉ
Mai 19, 2010 by
Antero de Alda

©
antero de alda
POEMA FORA DE PRAZO
Tinha no frigorífico sete palavras capitais
à espera de um dia de míngua:
mãe, mulher, sonho e respiração,
uma certa medida de sal
e
liberdade
e ainda não foi para morrer que nós nascemos
(em memória de Jorge de Sena).
E ao lado uma reserva de Mallarmé.
Por baixo do código de barras
dizia para manter tudo em lugar fresco.
(.....................................)
Agora que tanta falta me fazia
o poema ultrapassou o prazo de validade.
De qualquer modo de nada me valia:
há muito tempo que não pago a conta
da electricidade.
ANTERO DE ALDA
A RESERVA DA MALLARMÉ
I'm afraid there is no money.
«Já não há dinheiro» foi o que o antigo secretário
do Tesouro britânico disse ao seu sucessor, segundo
o que consta dos jornais.
«Acabou-se a festa», terá dito, em
Portugal, o presidente do BCP a propósito do estado
a que chegou o nosso país.
Mas acabou-se a festa como, se o nosso primeiro-ministro
disse em Espanha que «para dançar o tango são precisos dois»?
Será que o governo está a pensar recorrer ao ouro,
agora que as notícias dizem que estamos bem
posicionados no ranking dos países com as maiores
reservas do mundo?
Desconfio do que dizem as notícias dos jornais, mas
não tenho com que contradizê-las. A verdade é que os EUA,
a Grã-Bretanha, a Alemanha e a França estão no topo dos países com maior dívida
externa, e Portugal — que a União Europeia aponta
como um mau exemplo de gestão financeira (não
duvido!) —, aparece em vigésimo primeiro lugar,
logo a seguir à Grécia.
Fonte: CIA World Factbook, Janeiro de 2009
Desiludam-se os que estão a pensar emigrar: na
China, com quem temos de competir directamente no
mercado, grande parte do trabalho é entregue às
crianças, e nos países da Europa as dificuldades em
criar emprego são tantas ou mais do que em Portugal.
Nunca fui muito apologista da UE: lá como cá, o que
os ricos nos querem fazer crer é que o cidadão
comum está a viver acima das suas possibilidades,
representa para o Estado encargos insuportáveis e só
é útil para pagar impostos e em anos de eleições.
Já não há dinheiro? Não acredito. O que já não há é
Dignidade, nesta democracia desenhada no mesmo papel com que são
feitos os jornais.
O que já não há é
homens com tomates.
POST-SCRIPTUM 1: A propósito (porque a vida não é só
fotografia), vale a pena ler o que diz Manuel
António Pina no JN de hoje: «A crise tornou-se uma questão de saúde pública; já não afecta só o Orçamento, afecta também a coluna vertebral».
POST-SCRIPTUM 2: Ainda a propósito, do mesmo JN de
hoje: «Obama diz que o seu cão vale 1600 dólares».
Porquê? Porque foi oferecido pelo antigo senador
Edward Kennedy, entretanto falecido. Em suma, apesar
de tudo temos muito a aprender com os americanos. A
crise é só um estado de letargia da inteligência...
ou do oportunismo.
Armindo (com Ana e Cristina Miguel). Constantim, Miranda do
Douro.
Dezembro de 2009.