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A herança de Ritsos Para os meus filhos
Cerrem os olhos: deus não existe, não há nenhuma compaixão por quem vive, só aos mortais é dado o benefício do amor. [ da poesia, do amor e da morte ] Fevereiro de 2012
As piores mentiras «A nossa sociedade é muito mentirosa. Ela prega como sendo única a verdade de um pequeno grupo que detém o poder.» SEBASTIÃO SALGADO, 1997.
As piores mentiras (e também as mais perigosas) são aquelas que dizemos a nós próprios.
Os maiores erros (aqueles que levam às mais graves tragédias) nascem muitas vezes de verdades incontestáveis. Fevereiro de 2012
Elegia anti-capitalista A civilização actual continuamente priva os seus consumidores do que continuamente lhes promete, assim diziam Adorno e Horkheimer.
Só espero lucros no amor. Fevereiro de 2012
Manual de sobrevivência 1. José saiu de sua casa na manhã de uma quinta-feira e já não voltou. Os vizinhos garantem que sofria de perturbações mentais, mas há quem diga que o seu maior mal era a avareza. Foi encontrado morto três dias depois no fundo de um poço com uma pedra no bolso.
2. Amélia nunca casou (não foi feita para aturar homens, dizia) e não fez filhos. Vivia sozinha com dois bovinos para apascentar. Certo dia levaram-lhe a parelha e sussurraram-lhe ao ouvido Amélia, Amélia quanto mais apascentas mais te tormentas. Não demorou muito até aparecer tombada com uma corda ao pescoço.
A Deus não digas que temes o Diabo. Ao Diabo não digas que temes a Deus. Não digas a ninguém pois mas teme aos dois... Fevereiro de 2012
Antes de morrer... «A vida — essa trivialidade da matéria.» E.M. CIORAN.
Queria plantar uma árvore. Ainda não plantei uma árvore.
Gostava muito de plantar uma laranjeira, mas falta-me um pedaço de terra. Dezembro de 2011
_____ No dia em que Portugal cedeu aos chineses 21,35% da companhia nacional de electricidade. No mesmo dia em que o meu filho mais velho trouxe para casa o execrável Emil Cioran (Silogismos da Amargura, ed. Letra Livre, Lisboa 2009). Compreende-se: uma boa parte das serras portuguesas — onde a EDP andou a espalhar eólicas nos últimos anos —, foi comprada com o dinheiro sujo da «economia emergente» da China, ganho à custa do trabalho escravo.
Mistério «Suporei, pois, que há não um verdadeiro Deus, que é a soberana fonte da verdade, mas certo génio maligno, não menos ardiloso e enganador do que poderoso, que empregou toda a sua indústria em enganar-me.» DESCARTES, Meditações (1641)
eis um humano. nasceu na Sarmátia, entre o Mar Negro e o Cáspio para lá do Tanais. reinou na Pérsia onde negociou com incenso e especiarias e fez filhos de muitas mães. ameaçou imperadores secou o Ganges, atravessou a Grande Muralha da China e a Mongólia venceu quatro dos Sete Cumes. emergiu do fogo em Roma, lutou na Macedónia ao lado de Alexandre o Grande e consta que experimentou a montada do incansável Bucéfalo.
foi um dos patrocinadores da Real Biblioteca de Alexandria.
circundou a Atlântida a nado, caiu de cansado numa lixeira do Bronx-Westport e acabou às mãos de um porto-riquenho fanhoso...
que bafo é este de moral do corpo que apodrece? Julho de 2011
Poema do amor crepuscular
«A cancela está aberta. Não pára de bater. Está assim há anos. Bate, bate... Este vento inferniza até aos ossos e não há maneira dela se calar. Ouviste? Dantes ela não batia. Arranjava-se!
Tenho que ir lá acima. Buscar uns pregos... Não há maneira de te levantares daí.
O vento amassa-nos. Dia e noite, noite e dia. Nem sei se posso. Olha que não vou lá acima há muito tempo. Às vezes também chegam de lá uns barulhos estranhos, parece que há fantasmas cá em casa...
A cancela está a bater. Acho que ainda há qualquer coisa no sótão. Vou lá ver. Levantas-te daí?» Maio de 2010
A reserva de Mallarmé É sabido que o pintor Degas fez poesia na sua juventude. Consta que um dia encontrou Mallarmé e disse: «Hoje queria escrever um poema, mas não tenho ideias». Ao que Mallarmé respondeu: «Mas você não escreve poemas com ideias, você escreve poemas com palavras.»
Tinha no frigorífico sete palavras capitais à espera de um dia de míngua: mãe, mulher, sonho e respiração, uma certa medida de sal e liberdade e ainda não foi para morrer que nós nascemos (em memória de Jorge de Sena). E ao lado uma reserva de Mallarmé.
Por baixo do código de barras dizia para manter tudo em lugar fresco.
Deixei passar os dias com migalhas e desprezei as letras mais pequenas, porque «à laboriosa abelha não sobra tempo para tristezas» 1.
Agora que tanta falta me fazia o poema ultrapassou o prazo de validade. De qualquer modo de nada me valia: há muito tempo que não pago a conta da electricidade. Maio de 2010 _____ 1 William Blake
A propósito de migalhas: «a gente neste mundo alimenta-se ou sobrevive dessas migalhas do banquete dos outros» (Jorge de Sena).
outros poemas inéditos [ da série poemas intermináveis — videografias do lixo pós-moderno ]
em livro #1. «oceanografias» 1986
Se deitarmos uma gota de um medicamento numa piscina cheia de água
e agitarmos bem até uma boa diluição, recolhermos depois uma pequena gota dessa
piscina e a deitarmos numa outra piscina e assim mais uma ou duas vezes, podemos
concluir que a água da última piscina adquiriu as mesmas propriedades biológicas
que o medicamento inicialmente utilizado, podendo assim continuar a surtir o
mesmo efeito no tratamento de qualquer paciente que a ela esteja sujeito. A
aplicação desta filosofia homeopática «alternativa» tem ainda, segundo os
especialistas, a vantagem de tornar praticamente nulos os efeitos secundários
dos medicamentos assim potenciados.
A experiência, publicada em 1988
pela famosa revista Nature, permitiu aos
cientistas do Instituto Nacional de Saúde e de Investigação Médica francês, e em
especial ao seu chefe de equipa, Dr. Jacques
Benveniste, chegarem à conclusão que a água tem a
capacidade de fazer perdurar a estrutura molecular de uma substância degenerada.
Uma qualidade extraordinária que o próprio Dr. Benveniste
oportunamente designou como «a memória da água».
«A Memória da Água» consiste numa operação poética feita em computador a partir de uma
relação de correspondência numérica linear com alguns significantes semântica e
foneticamente próximos entre si. Partindo de vinte e quatro vocábulos seleccionados de três poemas originais, a cada um deles foi atribuído um número sequente de 1 a 24, os quais foram depois submetidos a combinações aleatórias, previamente limitadas por variáveis determinantes da quantidade de números de cada associação e da quantidade de associações de cada experiência, e posteriormente recodificados.
Só
estão disponíveis os três poemas originais.
Omitem-se a operação informática e os resultados.
1.
com a água
se confundem os espelhos.
e também cristais e anéis.
e um sumptuoso cálice
de cio.
o mar—
imenso terraço de cadáveres.
2.
também nos oceanos não sobrevivem
os peixes-filósofos
da anarquia.
3.
vestem-se
de líquido
serpentes ociosas.
—de orlas moribundas nos enlevam.
livro #2.
«Geografia Divina»
«Geografia Divina» é um trabalho de interpretações de viagens, reais ou imaginárias, enfatizando relatos históricos, misticismos ou simples experiências pessoais sobre os lugares da existência humana.
[VIETNAME]
Dia santo—oito horas da manhã.
No coração do inferno
lavam-se os dentes duma M-16.
É inconfundível o som
da Kalashnikov
a ser armada.
Eram duas armas dos diabos!—dizem.
Deus não aguentaria desfoliantes
nem excrementos.
Ver também | O Século C. N. A. | Ed. AJHLP, 1986 Ver também | memória de hibakusha e outros poemas | Ed. Galápagos—Fábrica de Poesia, 1999
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