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outros poemas inéditos [ da série poemas intermináveis — videografias do lixo pós-moderno ]
em livro #1. «oceanografias» 1986
Se deitarmos uma gota de um medicamento numa piscina cheia de água
e agitarmos bem até uma boa diluição, recolhermos depois uma pequena gota dessa
piscina e a deitarmos numa outra piscina e assim mais uma ou duas vezes, podemos
concluir que a água da última piscina adquiriu as mesmas propriedades biológicas
que o medicamento inicialmente utilizado, podendo assim continuar a surtir o
mesmo efeito no tratamento de qualquer paciente que a ela esteja sujeito. A
aplicação desta filosofia homeopática «alternativa» tem ainda, segundo os
especialistas, a vantagem de tornar praticamente nulos os efeitos secundários
dos medicamentos assim potenciados.
A experiência, publicada em 1988
pela famosa revista Nature, permitiu aos
cientistas do Instituto Nacional de Saúde e de Investigação Médica francês, e em
especial ao seu chefe de equipa, Dr. Jacques
Benveniste, chegarem à conclusão que a água tem a
capacidade de fazer perdurar a estrutura molecular de uma substância degenerada.
Uma qualidade extraordinária que o próprio Dr. Benveniste
oportunamente designou como «a memória da água».
«A Memória da Água» consiste numa operação poética feita em computador a partir de uma
relação de correspondência numérica linear com alguns significantes semântica e
foneticamente próximos entre si. Partindo de vinte e quatro vocábulos seleccionados de três poemas originais, a cada um deles foi atribuído um número sequente de 1 a 24, os quais foram depois submetidos a combinações aleatórias, previamente limitadas por variáveis determinantes da quantidade de números de cada associação e da quantidade de associações de cada experiência, e posteriormente recodificados.
Só
estão disponíveis os três poemas originais.
Omitem-se a operação informática e os resultados.
1.
com a água
se confundem os espelhos.
e também cristais e anéis.
e um sumptuoso cálice
de cio.
o mar—
imenso terraço de cadáveres.
2.
também nos oceanos não sobrevivem
os peixes-filósofos
da anarquia.
3.
vestem-se
de líquido
serpentes ociosas.
—de orlas moribundas nos enlevam.
livro #2.
«Geografia Divina»
«Geografia Divina» é um trabalho de interpretações de viagens, reais ou imaginárias, enfatizando relatos históricos, misticismos ou simples experiências pessoais sobre os lugares da existência humana.
[ VIETNAME ]
Dia santo — oito horas da manhã.
No coração do inferno
lavam-se os dentes duma M-16.
É inconfundível o som
da Kalashnikov
a ser armada.
Eram duas armas dos diabos! — dizem.
Deus não aguentaria desfoliantes
nem excrementos.
Ver também | O Século C. N. A. | Ed. AJHLP, 1986 Ver também | memória de hibakusha e outros poemas | Ed. Galápagos—Fábrica de Poesia, 1999
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