


© antero de alda
(...) A maneira como vestimos, os processos com que comunicamos, os nossos laços profissionais determinam cada vez mais o índice de sociabilidade. A falta e/ou deficiência de relacionamentos significativos (isto é: o défice da rede de relações sociais, quer qualitativas quer quantitativas) provoca esse sentimento de desintegração, disfunção, insatisfação emocional a que se pode chamar solidão... ANDRÉ COMTE-SPONVILLE («O Capitalismo será moral?») e PAULA MARQUES («A Solidão na Terceira Idade»).
Vi que todos os seres têm uma fatalidade de felicidade(...) A cada ser, várias outras vidas me pareciam devidas. A minha saúde foi ameaçada. RIMBAUD
Etelvina Azevedo (81), Pitões das Júnias. Foi preciso 'morrer' para criar os filhos (7 ao todo, 5 que sobreviveram), e agora que se aproxima o fim definitivo já não há vontade para uma segunda vida. A crise — ou o que queiram chamar-lhe, porque crise sempre existiu — está a por em causa a própria fé. Para o capitalismo (como dizem Sponville e Rimbaud — e há tanta poesia trágica nas aldeias do interior!) a moral é uma fraqueza do cérebro. Aqui, há pouco dinheiro para investir em iniciativas solidárias. Para os idosos a ameaça da miséria é a dobrar: em muitos casos, já não há dinheiro para comprar medicamentos. Eis o triste resultado da estranha relação que temos connosco próprios, nas nossas preocupações com a vida, com a beleza e com o tempo que está para vir. A exuberância (ou a «fatalidade de felicidade») de alguns é a mutilação de muitos outros. É urgente parar para reflectir sobre isto.
Julho de 2010.






