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  Post 202 -  Maio de 2015  

 

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Vi ontem um excerto do filme Viúva Rica Solteira Não Fica, de José Fonseca e Costa, onde Mariana (Cucha Carvalheiro) diz o seguinte: «Às mulheres sérias nunca ninguém conta nada...»

 

Centrado ainda na relação entre mentira e política (ou verdade e política, segundo Hannah Arendt), lembrei-me da pergunta obscena de Derrida, feita numa conferência em S. Paulo, Brasil, em 1995: «A história da mentira, quem ousaria contá-la?»

 

 

mentirosos

 

Presumo que muita gente sabia, tal como o presidente da República, que as acções do BPN iriam afundar-se, e que, contra as expectativas do governador do Banco de Portugal, o Banco Espírito Santo iria falir. Presumo que muita gente sabia que o actual primeiro-ministro iria aumentar impostos, despedir funcionários públicos, cortar salários e reduzir pensões, contra tudo o que tinha prometido na campanha eleitoral. Presumo que muita gente sabia que o antigo primeiro-ministro, que agora está na cadeia, era um habilidoso na arte de deslumbrar, também ele sabedor de que «a verdade que não se opõe nem ao lucro nem ao prazer humano é por todos os homens bem vinda» (Hobbes, em Leviatã). Presumo, portanto, que, como terá dito Nietzsche, a verdade é «uma sequência de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canónicas e obrigatórias.»

 

 

 

FEMEN.ORG, End the European Central Bank dictatorship, Frankfurt, 15 de Abril de 2015.

foto: MICHAEL PROBST/AP

 

 

 

Gozando, pois, da nossa liberdade imaginária (como pensava Descartes em Meditações, 1641), acomodamo-nos todos com desvelado prazer a uma certa condição de escravos, e perante a ameaça da transparência — o senso-comum, aliado à capacidade que nos resta para nos surpreendermos —, conspiramos ainda com todas as nossas forças para permanecer enganados (iludidos), o que quer dizer: deslumbrados com a mentira.

Afinal, o que é o conhecimento do mundo? Não poderá o conhecimento do mundo ter como função principal iludir o indivíduo, ou (mais cruel ainda) levar o indivíduo a iludir-se a si mesmo?

 

Vejamos o que dizia Freud (A Censura dos Sonhos, in Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, Lição IX, 1916-17): «Desviem o olhar dos indivíduos e considerem a Grande Guerra que ainda devasta a Europa. Pensem na imensa brutalidade, crueldade e mentiras que são capazes de se espalhar pelo mundo civilizado. Acreditais que um punhado de homens ambiciosos e alucinados, sem consciência, poderia ter sucesso a soltar todos esses maus espíritos se os seus milhões de seguidores não partilhassem da sua culpa?»

 

Se da reflexão freudiana pode concluir-se que não existe sujeito sem uma boa dose de barbárie e cumplicidade, também da reflexão cartesiana se deduz que não existe indivíduo sem uma dose assinalável de mentira e acomodação. E o que diz Derrida? «A história da mentira, quem ousaria contá-la?»

 

Razão tinha Kierkegaard (The Point of View of My Work as an Author, 1848): ninguém está sozinho neste mundo, e quem acredita que está a ser honesto então está a ser hipócrita.

 

Afinal, um homem sério é um homem isolado. A esse, tal como às mulheres sérias, nunca ninguém conta nada.

 

 

 

____

"verdade e política"

Mesmo em obras como Eichmann em Jerusalém (1963), Hannah Arendt não deixa de colocar a questão da partilha da verdade com o cidadão comum, nomeadamente quando acusa Eichmann de não querer compartilhar a terra com o povo judeu: «And just as you supported and carried out a policy of not wanting to share the earth with the Jewish people and the people of a number of other nations.»

 

Em Verdade e Política (The New Yorker Magazine, 1967), Hannah Arendt escreveu que «Os factos e os acontecimentos são coisas infinitamente mais frágeis que os axiomas, as descobertas e as teorias — mesmo as mais loucamente especulativas — produzidas pelo espírito humano...» Ora, como muito bem diz Isabel Salema Morgado (A Verdade dos Factos: Excurso sobre o serviço “FactCheck” no jornalismo político, Lisboa, 2005), «só alguém que viveu, pensou e escreveu num tempo marcadamente dominado pela vontade e pelo poder de distorcer os factos, poderá assumir uma afirmação como aquela.»

 

Dominados hoje por velhos instintos de superioridade e novos axiomas, descobertas e teorias financeiras, somos confrontados muitas vezes com a mesma recusa em compartilhar a verdade com o cidadão comum ou com o mesmo poder e a mesma vontade de distorcer os factos.

 

 

 

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A alma tem muitos inquilinos

que estão frequentemente em casa todos ao mesmo tempo.

GÖRAN PALM

 

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